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Confiança, Aprendizado e Autonomia: a Base Invisível da Transformação Real

Aprender nunca foi apenas acumular informações. Desde muito antes da escolarização formal, o aprendizado humano acontece quando algo é vivido, incorporado e reorganizado internamente. Isso vale para uma criança aprendendo a andar, para um discípulo diante de um mestre, para alguém em processo terapêutico ou para qualquer pessoa que busca transformação pessoal. Em todos esses contextos, existe um elemento silencioso, mas absolutamente central: a confiança. Quando escolhemos seguir alguém — um professor, um terapeuta, um sacerdote, um instrutor de artes marciais ou um guia espiritual — não é apenas porque essa pessoa possui conhecimento técnico. É porque acreditamos, ainda que de forma implícita, que ela age de boa-fé e que sabe conduzir um processo. Essa crença não é ingênua nem mística: ela tem uma função neuropsíquica clara. O sistema nervoso só aprende profundamente quando reduz seus níveis de defesa. Enquanto o corpo permanece em vigilância constante, avaliando riscos e tentando man...
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O Paradoxo da Tolerância e a Fragilidade do Mundo Comum

Há uma ideia recorrente em nosso tempo que soa, à primeira vista, ética e incontestável: a de que toda diferença deve ser tolerada. Contudo, quando levada às últimas consequências, essa noção revela um paradoxo estrutural que atravessa a história humana e expõe a fragilidade de qualquer tentativa de convivência absoluta. A frase — “não podemos tolerar o intolerante” — já contém em si a contradição que pretende negar. Pois, no momento em que se define quem é o intolerante, estabelece-se um limite, uma exclusão, um julgamento. O tolerante, inevitavelmente, torna-se aquele que exclui. Esse paradoxo não é um erro lógico nem uma falha moral. Ele é ontológico. Toda forma de vida coletiva exige fronteiras simbólicas. Não existe tolerância infinita, assim como não existe sociedade sem algum grau de negação, correção ou contenção. A ilusão moderna é acreditar que podemos abolir os critérios sem abolir, junto com eles, o próprio mundo comum. O louco só existe porque existe o normal. O desvio só ...

A Ilusão da Separação: Natureza, Sociedade e o Colapso da Coesão

Existe uma distinção amplamente aceita no pensamento moderno que raramente é questionada: a separação entre o humano e a natureza, entre o indivíduo e o todo, entre a razão e o mundo que ela observa. Essa separação parece tão óbvia que se tornou invisível — e exatamente por isso, tão poderosa. Se observamos a natureza sem filtros conceituais, percebemos algo simples: nenhum sistema vivo existe de forma isolada. O João-de-barro constrói sua casa com barro, água e tempo. Ninguém chama essa casa de artificial. Ela é reconhecida como uma expressão natural de um ser natural. No entanto, quando o ser humano constrói sua morada, sua cidade ou sua tecnologia, chama-se isso de “artificial”, como se o humano estivesse fora da natureza, e não inscrito nela. Essa distinção não é ontológica. Ela é cultural. A ideia de que o humano é um observador externo do mundo, e não parte dele, foi consolidada no pensamento ocidental moderno. A partir dessa cisão, a natureza passou a ser vista como objeto, recu...

O Grande Paradoxo do Afeto: Entre a Neurobiologia da Escolha e a Crise do Vínculo

Nossa busca por compreensão emocional começa no nosso próprio hardware: o cérebro. Condições como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) nos mostram que a desregulação comportamental nasce de diferenças estruturais na conectividade neural e no processamento sensorial. O comportamento atípico, aqui, é geralmente involuntário, uma reação a um mundo sensorialmente avassalador, não uma escolha intencional de causar dano. ​No polo oposto da intencionalidade, temos o Transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS). Aqui, a neurociência aponta para um déficit afetivo crucial. Indivíduos com TPAS frequentemente exibem hipoatividade do Córtex Pré-Frontal e diferenças na Amígdala, a região cerebral ligada ao medo e ao remorso. Eles compreendem cognitivamente as regras sociais e a dor que causam, mas a ausência do "freio" emocional lhes permite escolher o comportamento predatório ou manipulador para benefício próprio. A sociedade, portanto, estabelece a distinção: o cérebro pode explicar...

Entre o Eu e o Mundo: Felicidade, Responsabilidade e Acolhimento

Você se deparou com algum dos discursos que exaltam a autonomia individual como se ela fosse uma solução para todas as dores humanas? Frases como “a felicidade só depende de você” ou “ninguém pode te ferir se você não permitir” proliferam em livros de autoajuda, palestras motivacionais e até mesmo em terapias superficiais. No entanto, essa visão, quando tomada como verdade absoluta, corre o risco de transformar-se em uma forma de alienação e narcisismo. Ela nos leva a ignorar que a vida não é uma experiência isolada, mas um tecido coletivo, marcado por relações e estruturas sociais que nos moldam e nos atravessam. Se cada pessoa passasse a viver apenas “no seu próprio mundo interno”, o que aconteceria com as dores compartilhadas, como o feminicídio, o racismo, o abuso infantil, a pobreza? Essas não são dores individuais, mas feridas coletivas. Quando falamos de violências estruturais, o silêncio e a indiferença são cumplicidade. Ignorar um morador de rua ou tratá-lo como invisível...

A Redenção como Ciclo Consciente

Dia desses ouvi um padre exorcista dizendo que suas experiências lidando com essas situações, levaram-no a compreender que a pessoa que estaria possuída, teria de alguma forma realizado a comunhão sem antes ter se confessado. Essa declaração me fez entrar em uma reflexão mais profunda sobre o que de fato acontece em uma confissão.  Na minha percepção, no caso da religiosidade usar isso com ferramenta, existe uma intencionalidade de controle através do medo e da culpa. Mas refletindo mais profundamente nessa questão, outras culturas também valorizavam de alguma forma, o ato desse reconhecimento do erro como um caminho o que me levou a pensar quais dispositivos psicológicos, sociais, espirituais entram em ação quando de fato assumimos nosso erro? Fui criado em uma cultura que, com frequência, encara o erro como um desvio a ser punido, esquecido ou escondido. Desde a escola, aprendi que errar é fracassar, mas percebi, já adulto, enquanto professor de capoeira, que talvez o erro seja, ...

A Quem Interessa o Esquecimento?

Muitas vezes ouvimos que esquecer o passado é um ato de libertação. Em círculos espirituais, filosóficos, terapêuticos, é comum que nos digam que precisamos desapegar da dor, compreender que as pessoas que nos machucaram agiram a partir de suas próprias limitações e, portanto, devemos apenas soltar, virar a página, agradecer pelo aprendizado. Mas eu questiono profundamente esse discurso.  Esquecer, por não ser um ato conscientemente induzido, pode ser apenas um autoengano, abrindo espaço para que uma dor mal resolvida continue agindo, no fundo, como um veneno silencioso. Se expandirmos esse raciocínio para o coletivo, vemos que também existem forças interessadas em que esqueçamos. Quando Rui Barbosa mandou queimar os registros da escravidão no Brasil, ele não estava apenas apagando papéis; estava cortando o fio que ligava gerações ao reconhecimento de quem sofreu, quem lucrou e quem deveria ter sido responsabilizado. A comunidade negra diaspórica carrega as cicatrizes de séculos de...