Aprender nunca foi apenas acumular informações. Desde muito antes da escolarização formal, o aprendizado humano acontece quando algo é vivido, incorporado e reorganizado internamente. Isso vale para uma criança aprendendo a andar, para um discípulo diante de um mestre, para alguém em processo terapêutico ou para qualquer pessoa que busca transformação pessoal. Em todos esses contextos, existe um elemento silencioso, mas absolutamente central: a confiança. Quando escolhemos seguir alguém — um professor, um terapeuta, um sacerdote, um instrutor de artes marciais ou um guia espiritual — não é apenas porque essa pessoa possui conhecimento técnico. É porque acreditamos, ainda que de forma implícita, que ela age de boa-fé e que sabe conduzir um processo. Essa crença não é ingênua nem mística: ela tem uma função neuropsíquica clara. O sistema nervoso só aprende profundamente quando reduz seus níveis de defesa. Enquanto o corpo permanece em vigilância constante, avaliando riscos e tentando man...
Há uma ideia recorrente em nosso tempo que soa, à primeira vista, ética e incontestável: a de que toda diferença deve ser tolerada. Contudo, quando levada às últimas consequências, essa noção revela um paradoxo estrutural que atravessa a história humana e expõe a fragilidade de qualquer tentativa de convivência absoluta. A frase — “não podemos tolerar o intolerante” — já contém em si a contradição que pretende negar. Pois, no momento em que se define quem é o intolerante, estabelece-se um limite, uma exclusão, um julgamento. O tolerante, inevitavelmente, torna-se aquele que exclui. Esse paradoxo não é um erro lógico nem uma falha moral. Ele é ontológico. Toda forma de vida coletiva exige fronteiras simbólicas. Não existe tolerância infinita, assim como não existe sociedade sem algum grau de negação, correção ou contenção. A ilusão moderna é acreditar que podemos abolir os critérios sem abolir, junto com eles, o próprio mundo comum. O louco só existe porque existe o normal. O desvio só ...