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Mostrando postagens de dezembro, 2025

O Paradoxo da Tolerância e a Fragilidade do Mundo Comum

Há uma ideia recorrente em nosso tempo que soa, à primeira vista, ética e incontestável: a de que toda diferença deve ser tolerada. Contudo, quando levada às últimas consequências, essa noção revela um paradoxo estrutural que atravessa a história humana e expõe a fragilidade de qualquer tentativa de convivência absoluta. A frase — “não podemos tolerar o intolerante” — já contém em si a contradição que pretende negar. Pois, no momento em que se define quem é o intolerante, estabelece-se um limite, uma exclusão, um julgamento. O tolerante, inevitavelmente, torna-se aquele que exclui. Esse paradoxo não é um erro lógico nem uma falha moral. Ele é ontológico. Toda forma de vida coletiva exige fronteiras simbólicas. Não existe tolerância infinita, assim como não existe sociedade sem algum grau de negação, correção ou contenção. A ilusão moderna é acreditar que podemos abolir os critérios sem abolir, junto com eles, o próprio mundo comum. O louco só existe porque existe o normal. O desvio só ...

A Ilusão da Separação: Natureza, Sociedade e o Colapso da Coesão

Existe uma distinção amplamente aceita no pensamento moderno que raramente é questionada: a separação entre o humano e a natureza, entre o indivíduo e o todo, entre a razão e o mundo que ela observa. Essa separação parece tão óbvia que se tornou invisível — e exatamente por isso, tão poderosa. Se observamos a natureza sem filtros conceituais, percebemos algo simples: nenhum sistema vivo existe de forma isolada. O João-de-barro constrói sua casa com barro, água e tempo. Ninguém chama essa casa de artificial. Ela é reconhecida como uma expressão natural de um ser natural. No entanto, quando o ser humano constrói sua morada, sua cidade ou sua tecnologia, chama-se isso de “artificial”, como se o humano estivesse fora da natureza, e não inscrito nela. Essa distinção não é ontológica. Ela é cultural. A ideia de que o humano é um observador externo do mundo, e não parte dele, foi consolidada no pensamento ocidental moderno. A partir dessa cisão, a natureza passou a ser vista como objeto, recu...

O Grande Paradoxo do Afeto: Entre a Neurobiologia da Escolha e a Crise do Vínculo

Nossa busca por compreensão emocional começa no nosso próprio hardware: o cérebro. Condições como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) nos mostram que a desregulação comportamental nasce de diferenças estruturais na conectividade neural e no processamento sensorial. O comportamento atípico, aqui, é geralmente involuntário, uma reação a um mundo sensorialmente avassalador, não uma escolha intencional de causar dano. ​No polo oposto da intencionalidade, temos o Transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS). Aqui, a neurociência aponta para um déficit afetivo crucial. Indivíduos com TPAS frequentemente exibem hipoatividade do Córtex Pré-Frontal e diferenças na Amígdala, a região cerebral ligada ao medo e ao remorso. Eles compreendem cognitivamente as regras sociais e a dor que causam, mas a ausência do "freio" emocional lhes permite escolher o comportamento predatório ou manipulador para benefício próprio. A sociedade, portanto, estabelece a distinção: o cérebro pode explicar...