Há uma ideia recorrente em nosso tempo que soa, à primeira vista, ética e incontestável: a de que toda diferença deve ser tolerada. Contudo, quando levada às últimas consequências, essa noção revela um paradoxo estrutural que atravessa a história humana e expõe a fragilidade de qualquer tentativa de convivência absoluta. A frase — “não podemos tolerar o intolerante” — já contém em si a contradição que pretende negar. Pois, no momento em que se define quem é o intolerante, estabelece-se um limite, uma exclusão, um julgamento. O tolerante, inevitavelmente, torna-se aquele que exclui. Esse paradoxo não é um erro lógico nem uma falha moral. Ele é ontológico. Toda forma de vida coletiva exige fronteiras simbólicas. Não existe tolerância infinita, assim como não existe sociedade sem algum grau de negação, correção ou contenção. A ilusão moderna é acreditar que podemos abolir os critérios sem abolir, junto com eles, o próprio mundo comum. O louco só existe porque existe o normal. O desvio só ...